• dia 7 de setembro de 2020

O Dia da Facada

O escritor Fábio Gonçalves relembra o dia em que o então candidato a Presidência sofreu uma tentativa de assassinato

Por  Fábio Gonçalves

Adélio saiu negando o convite de Dona Aparecida para o café da manhã. A anfitriã dera de ombros, já se acostumara com o jeito taciturno e esquivo do hospede dos fundos, o mais calado da casa. Como fosse, Adélio era-lhe gentil, não dava trabalho, a esquisitice era de se relevar. 

Já cedo raiava um sol ardido e Adélio tinha calor por debaixo da jaqueta grossa. Suava. Desceu assim mesmo a Rua Osvaldo Cruz, não tomando conhecimento dos transeuntes. Dobrou, pois, a Rua Santo Antônio, sem atinar com nada que o circundava, e foi se espichar no Parque Halfeld. 

Comprou um sorvete no quiosque amarelo. Sentou-se num banco e pediu horas ao senhor que folheava um jornal. O velho, de papo fácil, perguntou ao desconhecido se ele sabia do ilustre que viera àquela manhã visitar Juiz de Fora. Adélio fez que não, simulando indiferença.

A esta altura o candidato mais popular à presidência da República cumpria na cidade mineira sua agenda de campanha. Fora ter com doentes num hospital de câncer, depois se reunira com empresários. Sempre rodeado de muita gente, de correligionários que viam nele o homem que nos poderia evitar a queda total, a ruína absoluta.

Eu mesmo era dessa opinião. Passara os anos anteriores discutindo com amigos e parentes sobre aquele pleito presidencial, de 2018. O país estava rachado como nunca se vira. Laços familiares rompidos, camaradagens de data se desfazendo. Cidadãos comuns disputavam as avenidas, vestiam-se de cores opostas, auriverde versus vermelho, e entoavam gritos terríveis contra a facção rival. Estivéssemos em outros tempos, descambaríamos à violência. Havia aquela hostilidade que prenuncia guerra, morticínio.

Pois naquele dia acordei, vi notícias nas redes sociais, troquei mensagens e memes com amigos no WhatsApp, creio ter procrastinado alguma leitura, e então me pus a fazer tarefas da faculdade. Trabalharia à noite, véspera de feriado, num baile de dança de salão — arte da qual era professor.

Fui ao mercado, almoço, o tempo voa; o céu de São Paulo vai acinzentando. 

Entrementes, em Juiz de Fora, irrompe no Calçadão da Rua Halfeld um formigueiro humano. A massa se espreme na ruela ladeada pelo variado comércio do Centro. Gritaria, algazarra, festa. Na cacunda de alguém, o motivo da aglomeração: Jair Bolsonaro, primeiro lugar nas pesquisas eleitorais, político mais amado do país — também mais odiado —, ovacionado de Norte a Sul.

A multidão grita seu apelido: 

— Mito! Mito! Mito!

Fazem fotos, vídeos. Todos querem uma recordação do futuro mandatário.

Decerto alguém desde o Morro do Cristo, há pouco dali, viu a cena e se perguntou: 

— Uai, o que tá acontecendo lá embaixo?

Ao que alguém deve ter respondido:

— O presidente tá na cidade.

Ali também estava Adélio.

O homem chegara à cidade dizendo-se à cata de emprego. Demorou-se, pois, algumas semanas na pensão humilde da Dona Aparecida, quase no fim da ladeira da Rua Osvaldo Cruz, número 295. 

Adélio era pastor evangélico e militante político-revolucionário. Fora por sete anos filiado ao Partido Socialismo e Liberdade. 
Segundo os parentes de Montes Claros, interior de Minas, era homem pacato, inteligente, de fé. Ademais, pastor requisitado, de reza bonita, de sábias pregações.

Na internet, na face mais ativista, palavras de ódio contra políticos entendidos como de direita, sobretudo Bolsonaro. 
Ele, pois, o menos entusiasmado do cortejo, foi se esgueirando, acotovelando, arrumando brecha. De tanto em tanto, se aproxima do candidato. Tem um missão.

Bolsonaro, com sua camiseta verde e amarela, “meu partido é o Brasil” estampado, vai acenando aos fã, passa a mão na cabeça de um, cumprimenta o outro, sorri para todos. Está de peito aberto ao povo que o acolheu.

Ao momento que os dois vão se aproximando, 15h37, eu, em Diadema, vou ao banho iniciar os preparativos pro bailado. 
Quando saio da ducha, percebo o celular vibrando tresloucado, mensagem atrás de mensagem. Clico no aplicativo, vem o choque: 
“Bolsonaro sofre um atentado”.

Fiquei atônito, gelado. Trôpego, ligo a TV. Todos os principais canais davam a notícia, ainda com imprecisões: Bolsonaro sofrera um atentado à faca. Era verdade.

Os grupos em polvorosa, ligações, marcho de cá pra lá. Mais que tudo, tenho presságios ruins, angústia que os espanhóis devem ter sentido em 1936, com a impugnação do resultado eleitoral. Nos anos seguinte, 150 mil espanhóis perderam a vida pela mão dos compatriotas. Na hora, senti esse azedo de morte.

Foi assim:

Como arquitetara, Adélio se aproximou do candidato, o cercou daqui e dali, querendo melhor posição, e, quando viu ensejo, cravou fundo um facão no bucho de Bolsonaro. Golpeou, girou a lâmina nas entranhas da vítima e tirou a arma. Tudo com precisão e velocidade de profissional, de gente treinada para matar. 

Não tardou ao vídeo do atentado ser exibido em todas as emissoras, no Brasil e no mundo. 

O homem que diziam violento, tirano, novo Hitler, sem ter agredido ninguém era esfaqueado em pleno dia, nos braços do povo. 

Vi aquilo, torci o rosto, imaginei a morte do homem e me dobrei à tristeza, à desesperança. Primeiro condoído pela dor do homem. Depois pelo país, que decerto cairia num pandemônio. Crime assim, pensava, é brecha para estourar as porteiras da selvageria. 

Depois da covardia, Adélio foi prontamente identificado como o criminoso. Foi dominado e recebeu alguns golpes dos apoiadores indignados. A massa queria supliciá-lo ali mesmo. 

No entanto, a polícia fez um cordão de isolamento e, para surpresa e mesmo decepção do próprio Adélio, ele escapou da cena com vida — em depoimentos ele declara que, no seu entender, não sobreviveria ao crime; foi como revolucionário suicida. 

Sobreviveu ele, e, como sabemos, sobreviveu o Jair.

Levando às pressas à Santa Casa, o presidente passou por delicada cirurgia, perdeu metade do sangue, esteve por um triz. 

Enquanto ele estava na mesa de operação, eu, muito à contragosto, ia ao trabalho, ao baile de dança de salão mais triste que jamais houve. Naquela noite, não prestei atenção às músicas, às parceiras, aos passos. Como as pernas do Brás Cubas, deixei que as minha me conduzissem no ofício enquanto minha alma atribulada se dava toda ao exercício de adivinhar o futuro tenebroso do país.

De novo em casa, tive pouco ânimo para conversar com a esposa, não quis o jantar, dormi mal.

No dia seguinte, porém, a 7 de setembro, Bolsonaro ressurgira falando à nação, agradecendo à Deus pelo milagre, milagre a ele e a todos nós.

 

Fonte: Do Site Brasil sem Medo

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