Jovens Cristãos “esquisitos”

  • dia 5 de agosto de 2020

Jovens Cristãos “esquisitos”

Incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais estão de volta… E a iniciativa é justamente dos jovens! Mas de onde vem o interesse das novas gerações pela religião? E por que elas se sentem tão atraídas pelas formas tradicionais de culto?
Muitos autores de esquerda têm dificuldade em explicar a atração dos jovens pela religião, particularmente em suas formas mais tradicionais. Em tese, essa atração não deveria existir. Ela dá curto-circuito na lógica das narrativas prediletas da esquerda. Jovens deveriam sentir-se atraídos por narrativas revolucionárias que pregam o progresso e a igualdade. A história, dizem os esquerdistas, é uma sucessão de disputas de poder que dividem as pessoas entre exploradores e explorados. Jovens religiosos não se encaixam na narrativa porque buscam um Deus que é amor e perdão.
Quando esse autores não conseguem identificar a luta de classes nessa atração religiosa, resolvem elaborar uma ladainha de acusações, tachando os jovens crentes de “racistas”, “misóginos” (quem tem aversão às mulheres), “homofóbicos” (quem tem aversão aos homossexuais) e até “elitistas” (jovens de classe mais rica).
Recentemente, a jornalista Tara Isabella Burton causou alvoroço com um ensaio publicado em The New York Times, intitulado Christianity Gets Weird [“O cristianismo torna-se esquisito”]. Ela se identifica como uma jovem cristã tradicional, atraída pelas formas externas mais antigas. Ama incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais. No entanto, como moça pós-moderna alheia às principais narrativas ocidentais, ela acha difícil explicar sua atração pelo esplendor medieval e pela “pompa histórica” do culto em latim.
Os liberais que acompanham a tendência sentem uma perplexidade semelhante. Eles tentam minimizar essa atração rotulando-a como uma “moda” da juventude. Dizem que a culpa disso é o apego superficial e fetichista a uma “estética sobrenatural”, que os deixa exasperados, e rotulam de “esquisito” aquilo que não conseguem entender. Isabella e muitos outros que se unem a ela online adotaram o rótulo com certa ironia.
Portanto, cristãos “esquisitos” estão aparecendo na cena cultural, muitas vezes em espaços na internet onde podem se reunir e compartilhar suas opiniões.
A jornalista afirma que “cada vez mais jovens cristãos, desiludidos com binarismos (lutas de poder) políticos, incertezas econômicas e com o vazio espiritual que define a América moderna, encontram alívio numa visão da fé claramente antimoderna”.
Os membros das gerações Y e Z percebem o vazio do deserto cultural pós-moderno. Também rejeitam o vazio das principais igrejas protestantes, que atenuaram as verdades sobrenaturais e exaltaram trivialidades. Esses peregrinos online detestam os aspectos estéreis, feios e cruéis da vida moderna.
Eles anseiam por algo verdadeiro e profundo. Sua propensão a “voltar” à Idade Média e à fé tradicional é o pior pesadelo de um esquerdista. Este fica perturbado não apenas por causa da atração que esses jovens sentem por um cristianismo vigoroso, mas também por sua rejeição dos fundamentos antimetafísicos (Sem Transcendência, sem o espiritual) da ordem de esquerda, que foram intensificados pela desagregação política e econômica dessa ordem, provocada pelo coronavírus.
O problema dessa corrente contracultural é a sua dificuldade em se definir e se expressar. Seus seguidores jamais conheceram o mundo tradicional, e agora o admiram. São vítimas de uma cultura pós-moderna caótica, destituída de estrutura e estabilidade. Isabella afirma que uma rebeldia “punk” caracteriza o movimento, que parece ser contrário a tudo o que faz parte do establishment, inclusive a economia moderna.
Esses jovens são movidos pela “ânsia de algo que está além do que a cultura americana contemporânea lhes pode oferecer, algo transcendente, politicamente significativo e pessoalmente desafiador”.
Eles não sabem exatamente o que estão a buscar, mas detectam algo que os fascina e se apegam a isso com paixão. Críticos superficiais rejeitam esse apego, pois acham que a adesão a aspectos externos pode levar a vários perigos.
Mas esses críticos estão errados.
Existe um nome para o que esses jovens cristãos buscam e encontram nas formas tradicionais de culto, como nas Missas em latim, no incenso e nas Vésperas solenes. Eles encontram uma beleza autêntica que toca e eleva sua alma, fazendo-os distanciar-se da feiura da modernidade. O pensamento filosófico ocidental chama essa beleza de sublime (Divino).
É com acerto que Edmund Burke considera o sublime a “emoção mais forte que a mente é capaz de sentir”. Ele consiste em coisas transcendentes que provocam fascínio por causa de sua magnificência. É algo que nos convida a superar o egoísmo e a autossatisfação e a olhar para coisas mais elevadas — o bem comum, a santidade e, em última análise, Deus —, coisas que dão sentido e propósito à vida.
Quer se manifeste em obras de arte, em grandes feitos ou na liturgia religiosa, o sublime fomenta sentimentos de lealdade, dedicação e devoção que podem preencher o vazio do deserto pós-moderno.
A Igreja se cerca de coisas sublimes, coisas que sem dúvida atraem e convertem as pessoas para o culto e o serviço a Deus (coisas que, infelizmente, foram abandonadas pelos progressistas). Elas são manifestações externas que revelam algo da própria grandiosidade de Deus. A natureza humana se sente naturalmente atraída por elas e por princípios e doutrinas que fascinam o intelecto, em razão de sua lógica e sabedoria.
Os jovens cristãos estão certos ao presumir que as coisas que provocam fascínio são parte de um modo de vida distinto daquele que encontram hoje no mundo. Também estão corretos em sua percepção do colapso irreversível da ordem esquerdista, que nada lhes oferece de sublime. Não há nada de “esquisito” em sua descoberta de uma ordem social cristã que trilha o caminho oposto das alternativas individualistas e estéreis, que são, elas sim, a verdadeira esquisitice na história humana.
Os esquerdistas pós-modernos não se sentem ameaçados quando o cristianismo tradicional aceita ser apenas mais um de tantos elementos no bufê cultural. Porém, quando as pessoas rejeitam a infraestrutura filosófica que sustenta o esquerdismo, eles perdem toda a tranquilidade.
O problema, para esse sedentos jovens cristãos, não está no objeto de seu fascínio, mas em como dar os próximos passos que levariam, normalmente, a um aprofundamento de sua fé. É preciso ir além da “esquisitice” e abraçar com sinceridade o sublime, em toda a sua plenitude e autenticidade.

Acréscimo do Padre Alexandre Melo:
Com a entrada da Modernidade e o Iluminismo da Pós Revolução Francesa, cresceu no mundo o ateísmo militante em combate à religião e aos valores morais e doutrinais do Catolicismo em nosso Ocidente. A secularização (perda do sentido do Sagrado) e o relativismo ético e Moral (deixar de lado os valores da nossa Moral cristã), tudo isso afetou profundamente a vivência católica em nossos tempos, onde foram se deixando de lado gradualmente o valor da Sagrada Tradição bimilenar de nossa Igreja, o entendimento da nossa doutrina, a perda do sentido do Sagrado, a falta de espiritualidade e compreensão da importância dos Sacramentos e da devoção popular, onde tudo passa a ser apresentado ao nosso povo de forma muito horizontal, secular, politizada, fazendo com que o Cristianismo fosse colocado de forma muito rasteiro, materialista e em pé de igualdade com qualquer outra religião ou ideologias desse mundo.
Um outro fenômeno principalmente em nossa América Latina, foi a penetração da chamada Teologia da Libertação em nossa Igreja, uma teologia que já foi condenada por dois papas (S. João Paulo II e Bento XVI) pois se utiliza de princípios Marxistas que também foram utilizados por Marx para a criação da ideologia Comunista e socialista. A teologia da libertação, em nome de uma prática a favor dos pobres e em busca de justiça social, acabou por transformar a pregação do evangelho em puro socialismo, transformando a construção do Reino de Deus em mera revolução social e instigando a luta entre classes, endemonizando a classe mais rica e divinizando a classe mais pobre, colocando-os como protagonistas da construção do Reino de Deus. Com essa politização dentro da Igreja a partir dessa teologia da libertação, a Tradição da Igreja, sua espiritualidade e doutrina foram esvaziadas por um mero socialismo e uma pregação muito mundana do evangelho, só evidenciando os problemas sociais e não a busca da Salvação eterna, a santidade de vida, pela oração e sacramentos, a celebração da Santa Missa perdeu o sentido do Sagrado e do Mistério divino, deixou-se de lado os santos, as devoções, os sacramentais, e isso fez com que muitos e até nossos jovens abandonassem a Igreja, pois se sentiam mais dentro de uma Ong. do que dentro da Igreja – Esposa de Cristo, Sacramento de Salvação para o mundo.
Esses jovens que estão retornando para nossa Igreja, redescobrindo sua verdadeira face pela beleza de sua Sagrada Tradição de mais de 2000 anos, na verdade estão em busca do espiritual, do Transcendente, do Mistério de Deus. Eles querem a verdadeira doutrina de Cristo, desejam a santidade a exemplo dos santos, querem os Sacramentos, querem participar de uma Missa celebrada com zelo, amor e que coloque o Cristo crucificado no centro, pois isso que é a missa. Esses jovens querem aprender a moral cristã, para fugirem do pecado e ganhar o céu. O uso do véu, o canto gregoriano, o comungar de joelhos na boca, a liturgia solene com incenso e o sacerdote com todos os paramentos necessários, tudo isso são elementos que a Igreja sempre fez uso em sua Tradição e que nos ajuda a entrar no Mistério de Deus. Na verdade esses jovens não são cristãos “esquisitos”, eles só querem a Igreja de sempre.

– Quando o artigo fala de jovens que voltam à uma busca por elementos tradicionais da Igreja, como o véu, o uso da missa em latim, o comungar de joelhos, isso não quer dizer que tais elementos externos sejam obrigatórios para se viver a Sagrada Tradição da Igreja ou para nossa própria Salvação, mas esse fenomeno apenas demonstra uma busca pelo espiritual, pelo transcendente e por uma igreja que lhes ajudem no caminho da santidade. Mas a vivencia da sagrada Tradição da Igreja se dá de muitas formas, porém sempre vai pelo caminho de um evangelho puro sem ideologias e partidarismos politicos, pela vida de oração e a busca constante dos Sacramentos, pela vida dos Santos e uma profunda devoção a N. Senhora e por uma verdadeira luta contra o pecado no caminho da conversão. É isso que os jovens buscam e devem encontrar isso na Igreja. Os elementos externos podem ajudar, mas o que importa é a vivencia da Tradição, os tesouros que a Igreja acumulou nesses mais de 2000 anos de história.

Pe. Alexandre Melo

FONTE: www.padrepauloricardo.org

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