Guido Schäffer: o Jovem médico surfista que decidiu ser santo

  • dia 4 de fevereiro de 2020

Guido Schäffer: o Jovem médico surfista que decidiu ser santo

Guido Schäffer:
o Jovem médico surfista que decidiu ser santo

Janeiro é o mês em que boa parte das universidades divulga a lista de aprovados no vestibular. Jovens de todo o país aguardam ansiosos a notícia de que finalmente poderão cursar o ensino superior. A rigor, a entrada na universidade representa, para muitos, uma espécie de redenção, que marca o início da maior idade, pois é nesse período que os filhos saem de casa, mudam-se para outras cidades e assumem algumas responsabilidades básicas que todo adulto deve ter.

Com todas essas mudanças, a universidade também é o lugar onde muitos abandonam a religião. E isso se deve à ideia absurda de que a fase universitária é o tempo das grandes experiências, não só no campo científico, mas especialmente no campo moral. Longe dos olhares dos pais — e consequentemente do que lhes freava os impulsos juvenis —,  quantos jovens se perdem por achar que agora, na universidade, têm toda chance de viver conforme lhes der na telha, sem qualquer “moralismo” ou “superstição”? É como se imaginassem que a vida acadêmica é um grande besteirol, como daqueles filmes hollywoodianos. Daí tantos “trotes”, “cervejadas” e outras recreações que costumam pautar os jornais todos os anos com as bizarrices dos nossos estudantes.

Mas o sistema universitário é, na verdade, uma grande ilusão. Trata-se, no mais das vezes, de um lugar onde o aluno não é incentivado a descobrir a substância das coisas, como na educação clássica, mas a mergulhar nas mais loucas abstrações, que o prendem num mundo absolutamente paralelo. Afinal de contas, a causa final de todo esse sistema é o título, a chancela, o diploma; ou seja, algo um tanto superficial. E a consequência disso não poderia ser outra senão a mesquinhez: a única preocupação dos estudantes é a de estarem na média no fim do semestre.

Há, porém, alguns jovens que não se iludem com o diploma e buscam manter-se acima da linha da mediocridade, preservando em seus corações aqueles valores inegociáveis da fé e da razão. É o caso de Guido Schäffer, cujo testemunho cristão no exercício da medicina atraiu muitas almas para a grei do Senhor. Atualmente, a Arquidiocese do Rio de Janeiro promove a causa de beatificação do jovem, que também foi seminarista e morreu em 2009, em odor de santidade.

Guido Schäffer nasceu em 22 de maio de 1974, no município de Volta Redonda (RJ). É da pena de G. K. Chesterton a afirmação muito sábia de que “todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras se aplicam perfeitamente à vida de Guido, que, como muitos santos da Igreja, teve também um passado miserável. De início, ele viveu boa parte de sua vida como aquele tipo de homem dado às paixões. Em suas memórias, ele confessa como precisou de muita oração e penitência para corrigir os erros de uma adolescência dissoluta: faltou à Missa, roubou, usou drogas [1], viu pornografia, teve relações sexuais… Era, afinal, apenas mais um rapaz “comum”, que gostava de surf e, vez ou outra, rendia-se aos impulsos do pecado.

Mas a graça de Deus tinha planos maiores. Aos seis anos, Guido havia sonhado com Nosso Senhor, que lhe dizia para ser obediente aos pais e participar da Missa todos os dias, porque, um dia, ele haveria de chamar muitos amigos para Jesus. E foi o que realmente aconteceu após a sua conversão. Guido começou a frequentar os encontros da Renovação Carismática e ali pôde fazer as primeiras experiências de oração, que despertaram nele a vontade de ser santo. Mais tarde, o jovem conheceu os exercícios espirituais de Santo Inácio, o desentortador de vidas, e entendeu que poderia ser amigo íntimo de Cristo, buscando a Deus em todas as circunstâncias e lugares, inclusive dentro da faculdade.

A vantagem de ser católico é que tudo pode ser convertido num caminho para Cristo. Foi a fé católica que fez Guido ver a medicina não como um fim, mas como um meio para a própria santificação. O estudo, em especial, era uma tarefa diária que ele teria de fazer com o coração aberto a Deus, em espírito de oração, para melhor servir o próximo. “A santidade”, explica o cardeal Saraiva, “não consiste certamente em fazer coisas extraordinárias, mas em fazer de maneira extraordinária as coisas de todos os dias”. Na oração, abrimos nossos olhos para a presença extraordinária de Deus nas coisas mais comuns. Guido Schäffer entendeu isso perfeitamente, de modo que procurou unir a vida ativa à contemplativa, fazendo tudo com atenção e diligência.

Guido mesmo dava testemunho da importância da oração. Certa vez, escreve ele em seu diário, “senti uma desolação por conta dos inúmeros trabalhos e provas que terei essa semana. Fui tentado pela impaciência a terminar minha oração antes do tempo”. A constância, todavia, ajudou-o a passar por tudo isso com tranquilidade, unindo-se ao Coração de Jesus.

Depois de formado, Guido decidiu dar uma resposta mais generosa a Deus. Ele havia meditado sobre a história do jovem rico e notara que precisava entregar seu diploma —  a única riqueza que tinha — a serviço dos pobres, a exemplo de São Francisco de Assis. Assim, Guido iniciou um trabalho junto às Missionárias da Caridade, de Santa Teresa de Calcutá, assistindo os irmãos de rua, enquanto ainda atendia na Santa Casa de Misericórdia, onde ajudou na Pastoral da Saúde e acompanhou todo tipo de pacientes. Esse trabalho era tão extraordinário que, mesmo como seminarista, Guido pôde continuar nos hospitais, com a licença do arcebispo do Rio de Janeiro.

A esse respeito, a irmã Caritas, que o auxiliou em várias ocasiões, dá o seguinte testemunho: “Muitas vezes usava dos carismas com que o Senhor o agraciava. Presenciei várias vezes, sobretudo o carisma da Palavra de Ciência. A todos tratava com delicadeza, paciência e compreensão”. Para quem acompanhou nosso curso sobre a Engenharia da Santidade, sabe que um dos sinais mais notáveis da santidade é a virtude da paciência (hypomoné), que se conquista apenas nas quartas moradas, a custo de muita penitência e oração. Deus vê a generosidade da alma e faz a passagem dela para um estágio no qual a caridade cresce com todas as demais virtudes. Vemos isso em Guido Schäffer, e não deve demorar muito para que a Igreja também o chame venerável.

O título de venerável é dado a “todos aqueles que pelo singular exercício das virtudes cristãs e dos carismas divinos suscitaram a devoção e a imitação dos fiéis” (João Paulo II, Divinus Perfectionis Magister). Sem a pretensão de antecipar o juízo de nossos pastores, os inúmeros testemunhos a respeito de Guido Schäffer não deixam dúvidas de que ele foi mesmo um herói da fé, seja pelo trabalho como médico, seja pelo seu apostolado nos grupos de jovens. Só isso pode justificar as várias homenagens e memoriais que já lhe foram dedicados pela piedade popular. “Em todo o tempo, dava testemunho de sua fé, no seu proceder irrepreensível com os outros. Vivia conforme os valores cristãos da cordialidade, temperança, caridade e justiça”, disse o professor de Guido, Clementino Fraga, numa homenagem após a sua morte.

A entrada no seminário talvez tenha sido o ponto decisivo nesse progresso espiritual que talvez leve Guido à glória dos altares. Tudo aconteceu no ano 2000, quando ele, durante uma oração, ouviu a voz de Deus, que lhe dizia: “Levanta-te, e serás sacerdote da minha Igreja”. Sabiamente, Dom Karl Romer, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, matriculou-o no mosteiro dos beneditinos, para que Guido pudesse continuar o trabalho nos hospitais. Desse modo, ele teve a chance de dedicar-se tanto à formação sacerdotal como ao serviço caritativo. Estudava filosofia, atendia na Santa Casa, liderava grupos de oração e ainda levava os jovens para cuidar dos mendigos, juntos às Missionárias da Caridade. E o que o fortalecia era a certeza de que Deus estava sempre ao seu lado.

Alguns testemunhos sobre o trabalho de Guido nos hospitais são mesmo surpreendentes. Conta-se, por exemplo, o caso de um policial cadeirante que voltou a andar após ter recebido a oração de Guido, durante um grupo de oração na Santa Casa de Misericórdia. Outros relatam como apenas a sua presença trazia paz e esperança aos pacientes mais angustiados. Além disso, ele tinha a grande preocupação de levar os doentes para a recepção dos sacramentos como a Unção dos Enfermos, a Confissão e, especialmente, a Santíssima Eucaristia. Até porque, a principal responsabilidade de um verdadeiro médico de Deus é salvar a alma dos seus pacientes. Não foi por menos que Guido Schäffer recebeu a alcunha de apóstolo da palavra e da paz.

Guido Schäffer morreu em 2009 num acidente, quando surfava com uns amigos. Pouco antes, ele já havia recebido alguns “avisos” de Deus, que o chamava para avançar a águas mais profundas. Também já confessara que “se pudesse escolher, gostaria de morrer no mar, surfando”. A prancha que Guido usava naquele dia 1.º de maio era dividida por um versículo do Evangelho de São Mateus: “Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (7, 14). Não deixa de ser significativo porque, em sua vida, Guido preferiu esforçar-se para passar pelo mais difícil dos vestibulares, pela mais estreita das portas, que é a entrada do Céu. Após sua morte, não demorou muito para que as pessoas reconhecessem nele os sinais claros de uma grande santidade.

Certamente, Guido Schäffer deve ser proposto como modelo para todos os jovens que aguardam a entrada na universidade. Nesse ambiente onde a religião é tantas vezes ofendida e desprezada, ele soube seguir o caminho de Cristo, fugindo da tentação e dos convites à mediocridade, fugindo da ilusão do diploma, a fim de ser um médico de verdade, que servisse aos outros, mormente os mais pobres. E fez isso com tanta convicção e amor que muitos já não hesitam em chamá-lo santo. Porque, de verdade, o real diploma que devemos buscar é a “coroa da salvação”.

Notas

  • A mãe de Guido explica, porém, que ao confessar, ele fez como fazem muitos santos, carregando nas tintas sobre os próprios pecados. Os roubos de que ele fala eram balas que furtava nas lojas quando criança. Depois, o relato das drogas se resume a dois cigarros de maconha que amigos surfistas lhe deram uma única vez. Em todo caso, ele precisou reparar tais ofensas a Nosso Senhor. Agradecemos à senhora Nazaré Schaffer pelos esclarecimentos.

Recomendações

  • As citações do diário de Guido estão contidas neste livro: D. Justino de Almeida Bueno. Guido Schaffer: apóstolo da palavra e da paz. 3.ª ed. Juiz de Fora: Subiaco, 2016.

Pe. Paulo Ricardo
Arquidiocese de Cuiabá – WWW. pauloricardo.org

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