A PANDEMIA E A FRAGILIDADE DA VIDA: SOMOS APENAS PEREGRINOS NESSE MUNDO

  • dia 20 de abril de 2020

A PANDEMIA E A FRAGILIDADE DA VIDA: SOMOS APENAS PEREGRINOS NESSE MUNDO

Testemunho de uma ex atéia convertida ao catolicismo.

Nossas vidas se paralisam quando a morte ameaça a quem amamos. A dor da tristeza muitas vezes se amplia pelo fato de o mundo seguir seu curso enquanto nós permanecemos imóveis. Quando a morte aparece na vida diária, podemos ir ao banco ou ao mercado e sentir-nos ofendidos por um momento ao ouvir as pessoas rirem alto. Depois, porém, recordamos que a morte não as atingiu. O coronavírus alterou a realidade. À medida que se espalha pelo mundo, a morte entra, de certa maneira, na vida de todos ao mesmo tempo. Estamos experimentando um memento mori comunitário, uma lembrança constante e sempre presente da morte.

Hoje, vejo a providência de Deus no fato de, três anos antes do início dessa crise, ter colocado sobre a minha mesa uma pequena caveira de cerâmica e começado a meditar sobre a minha morte, imitando o fundador da minha ordem religiosa, o Beato Tiago Alberione. Naquela ocasião, depois de sete anos no convento, o mal-estar da mediocridade e da falta de fervor medrava em minha vida espiritual. Eu protestava a Jesus na oração, dizendo-lhe: “Ajuda-me! Enche-me novamente com teu fogo e teu fervor”. Ele respondeu a minhas orações com a graça da meditação sobre a morte. De uma hora para a outra, tudo ficou claro; senti como se tivesse ido ao oftalmologista e saído de lá com a prescrição certa. Meditar sobre a morte mudou minha vida

Um dos benefícios do memento mori, a prática da meditação sobre a morte, é ser uma oportunidade para a graça divina trazer à tona e à nossa atenção o fato de agirmos e pensarmos muitas vezes como gente sem fé. Ex-ateia que sou, Deus me ajuda constantemente a ver quando ainda me comporto como se Ele não existisse e Jesus não tivesse me salvado. Católicos de berço e convertidos de outros credos e religiões também não estão imunes a esse tipo de comportamento. Muitos de nós vivemos o dia-a-dia de modos que revelam uma incompreensão básica da vida e da morte sob a perspectiva cristã. Podemos recorrer aos ensinamentos da Igreja nessas matérias para, em alguma medida, remediar o problema, mas a prática da meditação sobre a morte ajuda-nos a ver de verdade como nossas vidas ainda estão muito enredadas nos fios dessa mentalidade venenosa.

Enquanto os católicos respondem à crise da COVID-19 na internet, vêm à tona algumas manifestações de incredulidade na atitude de alguns perante a vida e a morte. Num dos extremos estão os que se esconderam em casa e só pensam em si. Finalmente forçados a encarar a morte, ficam dominados pelo terror e o medo que prevalecem. É claro que todos o estamos sentindo em certa medida, mas para a maioria de nós é fácil reconhecer que o medo exagerado e egoísta não é a resposta cristã ideal a esta situação. O outro extremo é um pouco mais complicado. Algumas pessoas estão declarando de forma descarada que não têm medo da morte nem estão tomando os cuidados rigorosos exigidos pelas circunstâncias. À primeira vista, uma tal atitude pode até parecer santidade. Afinal, os mártires demonstraram coragem diante da morte. Esquecemo-nos, porém, que eles tampouco encaravam a vida e a morte com leviandade.

Embora nossa fé exija que aceitemos a morte, ela também nos chama a compreender o valor e a fragilidade surpreendentes de nossa vida e da vida do próximo. A vida humana é valiosa em qualquer circunstância, em qualquer estágio de desenvolvimento e em qualquer idade. Como disse o Papa São João Paulo II na Evangelium Vitae: “O sangue de Cristo, ao mesmo tempo que revela a grandeza do amor do Pai, manifesta também como o homem é precioso aos olhos de Deus e quão inestimável é o valor de sua vida” (n. 25). Muitos de nós professamos crer nisso, mas outra coisa que essa pandemia trouxe à tona foi o desprezo pela vida dos idosos

Infelizmente, algumas pessoas têm afirmado que, como os idosos morrerão em breve de qualquer jeito, não há motivo para maiores preocupações. No entanto, não há nada em nossa fé que diga que a vida perde valor com o tempo. Toda vida merece ser preservada como um tesouro precioso até sermos chamados por Deus para abrir mão dela. A meditação sobre a morte pode nos ajudar a confrontar alguns aspectos da vida que, por medo da morte, não valorizamos. Memento mori nos auxilia a ter a coragem necessária diante da morte, mas também nos leva a cuidar de nossa própria vida e da vida dos outros. Quando pensamos em nossa morte com frequência durante a oração, aprendemos que nossa vida são preciosas e que podemos confiá-las a Deus. 

Geralmente, os católicos têm liberdade para meditar sobre a morte quando se sentem preparados para fazê-lo. Hoje, no entanto, cada dia nos apresenta um convite doloroso e manifesto para meditarmos sobre a morte. Se não o aceitarmos agora, daremos uma brecha para que esse estado constante de memento mori nos leve à tentação e ao desespero. Deus sempre tira o bem do mal, e Ele pode usar essa pandemia para nossa santidade, ainda que isso nos leve à morte. Mas devemos também convidá-lo a entrar em nossas vidas, a fim de que possamos nos preparar. Podemos fazer isso começando a meditar sobre a morte com regularidade ou dedicando-nos com maior intensidade a essa prática. Só precisamos abrir nosso coração para Deus a fim apresentar a Ele o medo que sentimos da morte. Ele pode, com certeza, iluminar a escuridão em nosso coração e em nosso mundo.

Algumas destas perguntas podem servir de estímulo para os católicos que nunca meditaram sobre a morte no contexto da oração:

  • Como Deus está me chamando a contactar a comunidade mais ampla nesta época de medo, doença e instabilidade financeira? Que riscos Deus quer que eu corra para servir o seu povo?
  • Como Deus me chama a ter um cuidado rigoroso a fim de evitar a disseminação do vírus entre os vulneráveis e os fracos? Como posso valorizar a vida e me preparar para a morte?
  • Como Deus está me pedindo que escute as ansiedades e medos dos que estão ao meu redor e como pede que eu expresse os meus?
  • Dedique um momento da oração para refletir sobre a fragilidade e a beleza da vida humana em geral e de sua vida em particular. Em seguida, dedique um tempo para refletir sobre a inevitabilidade de sua morte. Imagine-se aos pés da cruz e converse com Jesus sobre tudo o que está acontecendo.
  • Reflita sobre a pergunta: “Estou preparado(a) para morrer?” Faça um exame de consciência e procure a confissão, se possível; se não puder ir, faça um propósito de ir tão logo seja possível e manifeste a Deus seu arrependimento e contrição. 

 

Fonte: Do Site WWW.padrepauloricardo.org

Título Original do Artigo: “Memento Mori em tempos de Pânico”.

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