• dia 31 de março de 2020

COMO PREVENIR OS DANOS PSICOLÓGICOS CAUSADOS PELA QUARENTENA

Psiquiatras e psicólogos ressaltam duas medidas importantes: jejum de informações e de redes sociais e longas conversas em família. 

A pandemia mundial provocada pelo novo coronavírus (Covid-19) tem resultado em mudanças profundas nos hábitos e rotinas de todas as pessoas do mundo. O isolamento social provocado pela quarentena tem proporcionado um maior consumo do conteúdo das redes de TV e das informações disponibilizadas no ambiente digital. 

É evidente a alteração nos programas diários televisivos e no conteúdo disponível via internet, que têm buscado dar ênfase aos cuidados preventivos e às notícias sobre os números de infectados e mortos por conta da enfermidade.

Programações inteiras dedicadas às informações (novas e velhas) do novo coronavírus, dados alarmantes e restrições cada vez maiores para saírem às ruas têm sido uma constante nas vidas dos cidadãos confinados em suas casas.

No entanto, a repetição massiva de informações sobre os danos que o vírus pode provocar nas pessoas, bem como a letalidade da enfermidade, em especial para os integrantes do chamado grupo de risco, tende a provocar resultados negativos nas mentes daquelas que acompanham diariamente os noticiários.

Em entrevista para a reportagem do Brasil Sem Medo, o psiquiatra Ítalo Marsili explicou os resultados negativos que a quarentena forçada poderá ter na mente das pessoas, em especial as mais idosas. 

De acordo com Marsili, apesar de até o momento não haver nenhuma comprovação de que a Covid-19 afeta o sistema nervoso central, sintomas relacionados à ansiedade poderão ser alguns dos impactos emocionais que a situação da quarentena forçada tenderá a provocar nas pessoas.

“É claro que essa situação toda irá trazer desajustes emocionais na sociedade como um todo. Isso tudo irá disparar reações similares a ansiedade, provocadas pelo medo, pela preocupação generalizada”, detalhou. 

Além dos sintomas já relatados, o psiquiatra também alertou que a preocupação excessiva com o vírus pode resultar em alterações no sono e no padrão alimentar no dia a dia. 

No livro “Inteligência emocional”, o jornalista e psicólogo norte-americano Daniel Goleman, traça um panorama em torno da ação do impulso na mente do indivíduo humano.

Goleman afirma que o impulso se trata de um veículo da emoção, cuja “semente” é um sentimento explodindo para expressar-se em ação. 

Para Ítalo Marsili, situações em que o sentimento constante é o medo ou sensação de desordem, existe a tendência de ocorrer um maior número de pessoas agindo de forma impulsiva. 

“Nossas ações podem vir das paixões, portanto, uma ação não-intelectual, como também podem vir do intelecto, ou seja, olhei, analisei, ponderei, fui lá e executei. Existe a possibilidade, num pior cenário, de medo, de caos, onde as pessoas começam a agir por impulso e deixam de agir pela razoabilidade, pelo intelecto. Elas agem através de um lugar inferior do espírito humano”, afirmou. “Uma civilização que passa a agir por impulso, tende a se aproximar muito de uma situação de barbárie”, completou.

 

Letalidade, comunicação e mudança psicológica

Apesar da baixa letalidade do novo coronavírus, sabe-se que a infecção possui alto contágio por entre as pessoas e também pelo longo tempo no qual o vírus pode permanecer numa superfície. Estudos da The New England Journal of Medicine apontam que o vírus pode ficar até 3 horas suspenso no ar e 72 horas em determinadas superfícies. 

Para Ítalo, essas informações endossam o poder do medo na mente das pessoas, provocando uma maior tensão entre elas.

“Esse vírus possui alto contágio e baixa letalidade, portanto, ele contamina muita gente, mas também, poucas pessoas morrem. Isso é um prato cheio pro terror e pânico, pois as pessoas tendem a pensar: todos estão contaminados, quem será o próximo a morrer nessa roleta desconhecida?”, afirmou. 

As ações de comunicação, de acordo com o psiquiatra, são fundamentais para que haja a colaboração em torno do fim da pandemia. Segundo Marsili, cabe aos líderes políticos ter a consciência e o cuidado no trato das informações públicas. 

“Se não tivermos uma comunicação clara e segura por parte dos nossos líderes, no sentido de eles pensarem: ‘sei o que estou fazendo’, a gente não irá superar essa crise psicológica”, ponderou. 

 

Medo e suas consequências

Numa pandemia, uma das emoções mais fortes despertadas na população é o medo. A repetição excessiva de informações, os números alarmantes e os riscos advindos do vírus, são alguns dos fatores responsáveis por gerar pânico entre os indivíduos. 

Portanto, o medo passa a ser uma emoção constante na vida da população. Com a quarentena forçada, a situação emocional das pessoas passa a ficar cada vez mais fragilizada, aumentando, assim, os riscos do desenvolvimento de uma doença psíquica.

“Uma situação habitual de medo, terror, pânico, provoca o aumento do cortisol e isso resulta em alterações metabólicas. Esse aumento, oriundo desse medo crônico e constante, é um fator de risco para a depressão clínica, que tem vários sintomas e pode se apresentar de vários modos. Ela baixa a produtividade, o pragmatismo, a capacidade de nos relacionar com os outros, por não estarmos sentindo prazer em nada, e pode até aumentar a tendência ao suicídio”, explicou Ítalo. 

“Toda essa situação, acrescida das mudanças do sono e as alterações nos hábitos alimentares, impactam diretamente na nossa disposição metabólica. Se comemos e dormimos mal, teremos uma saúde pior. Todo esse estado de coisas irá alterar o sistema imunológico e o metabolismo cerebral, criando uma predisposição para todas essas doenças”, completou o psiquiatra. 

 

Jejum de informações

Com as emissoras de televisão dedicando suas programações à cobertura do novo coronavírus, a tendência é que a repetição das informações gere um clima de mal-estar entre os telespectadores. Isolados em suas casas, o pânico passa a ser uma substância emocional cada vez mais presente entre as pessoas.

Em coletiva de imprensa neste sábado (28), o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, aconselhou que as pessoas consumam menos o conteúdo televisivo e busquem uma maior interatividade com seus familiares. 

O ministro criticou também o excessivo foco que as emissoras dão às informações negativas. 

“Desliguem um pouco a televisão. Às vezes ela é tóxica demais. A quantidade de informação e os meios de comunicação são sórdidos, porque eles só vendem se a matéria for ruim. Nunca você vai ver um jornal dizendo ‘uma pessoa estava sorrindo na rua’; ‘a felicidade está reinando em tal lugar’. Isso não vende. (…) Então, desliga um pouco isso, reúna a sua família e converse. Dialogue. Veja quais são os valores, acalmem, baixem a bola e vamos juntos, porque juntos, sairemos dessa”, disse Mandetta.

Para Ítalo Marsili, o jejum de informações é um fator fundamental para o bem-estar mental de todas as pessoas inseridas numa quarentena forçada.

“Um menor consumo de informações é uma da própria recomendação CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, em português). A psique humana não é capaz de absorver uma sequência continuada de estímulos de alta magnitude. Se a todo instante escutamos ‘tem uma ameaça, tem uma ameaça…’, isso faz com que a psique humana não consiga armazenar essas informações num lugar de saúde dentro da psicodinâmica. Essas informações visualizadas diariamente viram doença dentro da gente, podendo ser ansiedade, depressão ou pânico. Se abster de informações desse tipo é o ideal”, afirmou. 

 

Situação psicológica

Para a psicóloga Alice Melo, além do excesso de informações, há também os fatores das falsas notícias, propagandeadas principalmente pelas redes sociais. Os boatos espalhados afetam principalmente pessoas mais idosas, que acessam esse tipo de conteúdo, piorando ainda mais a situação geral.

“Muitas pessoas se baseiam em informações não confiáveis, acreditam em matérias compartilhadas em grupos de redes sociais, indicações de falsos médicos e coisas do tipo. Isso faz com que a população acredite em algo inexistente, tendendo ao achismo, ao invés de buscar informações oficiais. E isso piora toda a situação, é um massacre”, explicou a profissional.

Para Alice, a repetição de informações alarmantes pode gerar consequências ainda piores do que o isolamento social. Como forma de reduzir a tensão as pessoas precisam buscar consumir menos conteúdo televisivo e online, a tendência é que as pessoas entrem num processo mais profundo de estresse.

“Além de toda a carga emocional provocada pela quarentena, essas informações em grande escala tendem a despertar maiores emoções relacionadas à tristeza, angústia e isso faz com que as pessoas fiquem sufocadas de tantas notícias”, explicou.

 

Prazo e solução

Alice explica que a pandemia enfrentada atualmente será marcada pelo aumento no número de casos de pessoas com transtornos relacionados à ansiedade e depressão, mesmo após seu fim..

“A pandemia do coronavírus será mais um marco na história dos transtornos. A cada século há estopins, como guerras, conflitos, doenças, e em cima desses acontecimentos, há as consequências psicológicas negativas. Esse será mais um período que posteriormente resultará num aumento de pessoas inseridas processo de adoecimento, podendo ser desenvolvido durante a epidemia ou posteriormente, porque a pessoa já tinha algum transtorno e potencializou isso durante a quarentena”, detalhou a psicóloga. 

Uma das formas de reduzir as consequências da pandemia, segundo Alice, é buscar um maior diálogo com seus familiares e aproveitar melhor o tempo disponível dentro de casa. 

“No âmbito geral, temos buscado aconselhar as pessoas a conviver pensando no outro, como forma de melhorar o bem geral, uma vez que muitas famílias possuem problemas de convivência entre seus pares. Fazer uma atividade que inclua a todos ajuda bastante, além das atividades individuais, como leitura de livros, maratona de filmes, exercícios físicos, entre outros”, afirmou.

“Não adianta uma pessoa que está num processo de adoecimento forçar determinadas situações e para isso há os atendimentos online para tentar fornecer uma solução nesse sentido”, finalizou a psicóloga.

A busca por atividades entre família e a alternância nos conteúdos consumidos na televisão ou na internet, são algumas das principais soluções adotadas pelas pessoas em quarentena, como forma de reduzir, também, a preocupação com a pandemia e os seus efeitos na mente.  

 

Fonte: Do Site Brasil sem Medo – Fernando de Castro

PRÓXIMO EVENTO
PUBLICIDADE