APARIÇÃO DA VIRGEM EM LA SALETTE: A VERDADEIRA HISTÓRIA

  • dia 5 de maio de 2020

APARIÇÃO DA VIRGEM EM LA SALETTE: A VERDADEIRA HISTÓRIA

“Lembrem do valor da fidelidade ao Papa”: essa foi a mensagem de Bento XVI aos novos cardeais, eleitos no início deste mês. Bento repetidamente manifesta sua submissão e confiança no Papa Francisco… Mas quem tem razão é o Bruninho Roberto e a Carla Sheila, que se recusam a reconhecer a sua autoridade papal e declararam a Sé vacante!

Muitos desses sedevacantistas gostam de compartilhar nas redes sociais a seguinte frase, que faria parte da mensagem divulgada por Nossa Senhora de La Salette:

Roma perderá a fé e se tornará sede do Anticristo.

Essa frase faz mesmo parte da mensagem de La Salette? E o que poderia significar? Vamos explicar agora!

Muito resumidamente, a verdade é:

  • a aparição de La Salette é aprovada pela Igreja (explicaremos adiante o que isso quer dizer);
  • há duas versões aprovadas pela Igreja do “segredo” revelado aos videntes de La Salette – uma versão breve (a mensagem pública) e outra mais detalhada, que foi enviada ao Papa Pio IX;
  • a mensagem pública e a versão do segredo enviada ao Papa NÃO CONTÊM o texto “Roma perderá a fé…”;
  • a versão da vidente Mélanie de 1879 foi condenada pela Igreja(condenação válida ao menos até o CV II), e é a única que diz que “Roma perderá a fé…”.

Portanto a versão segredo de La Salette que profetiza a apostasia de Roma NÃO MERECE O CRÉDITO DOS CATÓLICOS. Isso é tudo o que você precisa saber.

Agora, se você quer entender todo esse rolo em detalhes, senta que lá vem história…

A APARIÇÃO E A 1a VERSÃO COMPILADA DO SEGREDO

Em 1846, a Mãe de Jesus apareceu a dois pastores, na pequena cidade francesa de La Salette-Fallavaux. Esses videntes se chamavam Mélanie (de 15 anos) e Maximin (de 11 anos).

Mélanie e Maximin diziam que a “bela senhora”, em prantos, havia lhes contado um segredo, que eles deveriam revelar ao Papa.

Não há nenhuma novidade trazida pelas revelações de La Salette. Tudo o que foi dito já havia sido previsto na Bíblia – especialmente, no Apocalipse – e nas visões sobrenaturais reveladas por diversos santos.

Em 1847, a diocese local compilou os relatos dos dois videntes em um texto único sobre o “segredo” que a Virgem teria lhes contado. E então foi divulgada a “mensagem pública de La Salette“, que é a versão mais breve do segredo

AS VERSÕES DO SEGREDO APROVADAS POR ROMA

Além da “mensagem pública”, há uma outra versão do segredo: a que foi enviada ao Papa.

Em 1851, os videntes permitiram que suas versões individuais do segredo fossem redigidas e enviadas a Roma, para a análise do Papa Pio IX.

Mélanie e Maximin forneceram, em separado e cada um a seu modo, mais detalhes do que a “bela senhora” teria lhes revelado. Roma não divulgou esse conteúdo, que ficou guardado nos arquivos do Vaticano (tão bem guardado que se perdeu…).

Ainda em 1851, após receber o apoio do prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos, o bispo de Grenoble publicou um documento garantindo que a aparição de La Salette “possui em si todas as características da verdade, e que os fiéis têm motivos para crê-la incontestável e certa”.

Por muitas décadas, os textos originais de Mélanie e Maximin (de 1851) foram considerados como perdidos. Isso gerou uma grande controvérsia, pois era impossível comparar a versão do segredo que Roma aprovou com a versão estendida que seria muitos anos depois publicada por Mélanie.

Reação de todos os que foram ao arquivo do Vaticano buscando as cartas originais dos videntes:

Até que, em 1999, o padre Michel Corteville descobriu as versões originais do segredo (de 1851), durante uma pesquisa nos arquivos do antigo Santo Ofício.

Atenção! Nas cartas originais dos videntes que foram entregues ao Papa NÃO há nenhuma referência à apostasia de Roma. Isso pode ser verificado no livro que o padre Corteville publicou, em parceria com René Laurentin: Découverte du secret de la Salette.

A “profecia” sobre Roma perder a fé seria acrescentada por Mélanie em uma nova versão, que ela publicaria somente em 1879.

A VERSÃO CONDENADA DO SEGREDO

Com o apoio e o imprimatur de um bispo italiano, em 1879, Mélanie publicou um panfleto com uma nova versão do segredo de La Salette, bem mais expandida, com revelações completamente novas. Desta vez, o texto traz a controversa “profecia” sobre a apostasia de Roma e diz que “a Igreja será eclipsada”.

Segundo o Pe. Jean Jaouen, no livro La grâce de La Salette, depois de ingressar em um convento em 1851, Mélanie foi se tornando cada vez mais desequilibrada mentalmente. Seu comportamento se mostrava sempre mais bizarro.

Mélanie começou a contar histórias fantásticas de sua infância milagrosa, dizendo que brincava com o menino Jesus e que fazia procissão religiosa com os animais. Ela teve ataques histéricos, ameaçou morder seu superior e começou a fazer profecias apocalípticas.

 

Como uma religiosa errante, Mélanie vivia pulando de galho em galho. Passou por várias ordens como noviça, e nenhuma aceitou que ela professasse os votos definitivos. Foi nesse cenário caótico que a versão do segredo de 1879 foi escrita e publicada.

E quais foram os frutos dessa nova versão? Em vez de edificação espiritual e aumento das virtudes entre os fieis, espalhou o anticlericalismo e as rixas, e incentivou o desacato aos sacerdotes.

Multiplicavam-se nas comunidades católicas cenas como essa: Dona Candoca e Dona Mariquinha, católicas fervorosas, discutindo se Roma perderá ou não a fé…

Roma reagiu, condenando essa versão do segredo, que Mélanie dizia ser a “integral”. No ano seguinte à sua publicação, a Santa Sé, por meio do cardeal Caterini, proibiu que esse panfleto de 1879 continuasse a ser impresso e divulgado.

Muitos católicos teimavam em desobedecer essa ordem, e a confusão só aumentava. Por isso, em 1915, o Santo Ofício publicou um decreto proibindo o estudo e a divulgação de TODAS as versões do segredo de La Salette (a não ser que o fiel tivesse a autorização de seu bispo).

O Santo Ofício renovou a condenação em 1922, e o panfleto de 1879 (somente esta versão) entrou para no Index, em 1923. A condenação pode ser acessada no site no Vaticano, em latim. Essa é uma tradução livre:

Acta Apostolicae Sedis (1923)

ANNUS XV – VOLUMEN XV

Decreto

Quarta-feira, 4 de Maio de 1923.

Na assembleia geral da Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício, os Eminentíssimos e Reverendíssimos senhores Cardeais, responsáveis por salvaguardar a fé e os costumes, proscreveram e condenaram o opúsculo: «A aparição da Santíssima Virgem sobre a montanha de La Salette, no sábado dia 19 de Setembro de 1845 – Simples reimpressão do texto integral publicado por Melanie, etc. Sociedade de Santo Agostinho, Paris-Roma_Bruges, 1922»; mandando, no que a isso diz respeito, que se apressem a retirar das mãos dos fiéis os exemplares do opúsculo condenado. E no mesmo dia o Santíssimo Padre, pela divina Providência Papa Pio XI, na costumada audiência dada ao Reverendíssimo Assessor do Santo Ofício, aprovou a decisão dos Eminentíssimos Cardeais que lhe foi relatada.

Uma nova condenação da versão do segredo de 1879 seria publicada pelo Santo Ofício sob o pontificado de Pio XII, em 1957.

Então, não devemos confundir a mensagem autêntica de Nossa Senhora de La Salette com os delírios de Mélanie.

No passado, papas já foram expulsos de Roma ou se viram obrigados a fugir da cidade, governando a Igreja de outro lugar (como no tempo de Avignon). Nesse contexto, pode-se sem problemas encaixar uma profecia sobre a apostasia de Roma. Porém, se alguém entende que “Roma perderá a fé” no sentido de que a Igreja sediada em Roma ensinará alguma doutrina errada, então essa pessoa está crendo em uma heresia.

A versão condenada do segredo (de 1879) não continha nenhuma heresia ou erro moral. Mas a Santa Sé a condenou pelos seus efeitos nocivos. A sentença de que “Roma perderá a fé” não é herética, dependendo da interpretação. Mas facilmente pode estimular a falta de reverência contra o clero e dar origem a teses infames contra o Papa.

Comparando as duas versões do segredo de La Salette, é importante notar essa grande diferença: bem longe de sugerir qualquer desconfiança contra a Igreja de Roma (como a versão de 1879), o primeiro texto do segredo revelado por Mélanie em 1851 profetiza o triunfo do vigário de Deus, o Papa.

Tamanha diferença no tom e na essência das duas versões apresentadas por Mélanie é algo, no mínimo, suspeito, não?

SITUAÇÃO DO SEGREDO APÓS O CV II

Após o Concílio Vaticano II, a Igreja aboliu proibição de os católicos acessarem e debaterem os livros do Index. Com isso, a divulgação do texto de Mélanie com a profecia de que “Roma perderá a fé” não está mais proibida.

Agora, observe a esquizofrenia: os tradicionalistas costumam rejeitar tudo o que veio após o Concílio Vaticano II… Mas essa rejeição é estranhamente seletiva! Quando se trata da versão estendida do segredo relatado por Mélanie, os radtrads parecem não se importar com o fato de que o veto sobre essa “revelação” foi suspenso sob a autoridade de… um papa do CV II!!!

Ainda que não esteja mais em vigor a proibição de se divulgar a versão do segredo que contém a “profecia” sobre a apostasia de Roma, um pouco de estudo e de bom senso são suficientes para rejeitar a crença nesse texto.

REVELAÇÕES PRIVADAS NÃO INTEGRAM O DEPÓSITO DA FÉ

E é sempre bom lembrar que revelações privadas não fazem parte do depósito da fé católica (Catecismo da Igreja, ponto 66). Nem mesmo as revelações que foram consideradas pela Igreja como livres de erro e dignas de crédito podem ser consideradas como dogmáticas.

Quando a Igreja aprova a devoção a uma aparição mariana, isso quer dizer que aquela aparição é credível (digna de crédito), ou seja, é bastante provável (atenção ao “provável”) que seja verdadeira. 

Portanto trata-se de uma autorização de culto dada pela autoridade da Igreja a uma aparição, após verificar que ela não contém erros de fé ou moral no conteúdo de sua revelação e que, muito provavelmente, aconteceu de fato.

Como explicou o então cardeal Ratzinger, em seu “comentário teológico” sobre as aparições de Fátima, os católicos podem aderir às revelações privadas relacionadas às aparições aprovadas DE FORMA PRUDENTE. Pru-den-te… entendeu???

Não há nada melhor exemplo de imprudência do que um bando de católicos histéricos e desocupados pegarem uma suposta profecia revelada por uma vidente em sua fase mais louca da vida e tentarem usar isso para desacreditar o atual papado.

Por: Padre Alexandre Melo

Fonte: Site O catequista

PRÓXIMO EVENTO