A Palavra se fez carne, não livro

  • dia 3 de setembro de 2020

A Palavra se fez carne, não livro

“O cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo”.

Nesta aula introdutória ao nosso curso bíblico, entenda a função que têm as Sagradas Escrituras em nossa vida: fazer-nos entrar em comunhão com Deus.

Mais do que uma abordagem puramente científica ou apologética — embora não as dispensemos de todo —, ao estudarmos neste curso as Sagradas Escrituras, nossa pretensão é colocar todos os nossos alunos em contato com a Palavra que se fez carne e que nos alimenta com a sua graça através das páginas sagradas. Para tanto, é necessário termos bem segura, desde o princípio, a seguinte verdade: “O cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo” (VD 7). As letras, de fato, que o Espírito Santo inspirou no tempo aos autores humanos das Escrituras estão precedidas na eternidade pelo Verbo, que existe desde o princípio junto de Deus (cf. Jo 1, 1-3). A Bíblia não é Palavra de Deus, portanto, a não ser em sentido analógico; propriamente falando, a Palavra é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho eterno do Pai, Jesus Cristo, nosso Senhor.

Como indicativo dessa verdade, sirva-nos de introdução a estas aulas o prólogo que São João escreve à sua primeira carta canônica:

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam da Palavra da Vida — vida esta que se manifestou, que nós vimos e testemunhamos, vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós —, isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo. Nós vos escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa (1Jo 1, 1-4).

O que era desde o princípio“: antes mesmo que o mundo fosse criado, a Palavra já existia; entre o Pai e o Filho, um diálogo de amor já acontecia; no seio da Trindade, a bem-aventurança já havia. Foi por pura gratuidade que Deus, servindo-se de seu Verbo, tudo criou. “Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito de tudo o que existe” (Jo 1, 3). Formou-nos a nós, homens, para que pudéssemos também nós fazer comunhão com Ele; deu-nos a existência a fim de que participássemos da sua felicidade. O ser humano, no entanto, em nossos primeiros pais, fez ouvidos moucos à Palavra e apartou-se de Deus, frustrando o plano original que Ele tinha para todos os seus filhos.

Foi então que, para resgatar-nos de nossa condição decaída, o Verbo eterno, que permanecia imperceptível aos nossos sentidos, tornou-se-nos visível, audível e tátil: “Estava junto do Pai e se tornou visível para nós“. O que o discípulo amado do Senhor anuncia, portanto, não é uma peça de sua imaginação ou uma fábula passada pelos antigos, mas uma verdade palpável, que ele mesmo testemunhou: “O que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam da Palavra da Vida“.

São João Evangelista deixa escrita a sua experiência com o Verbo, mas para quê? “Para que estejais em comunhão conosco“. As Sagradas Escrituras, e não só elas, como toda a pregação da boa-nova, existem em vista da comunhão com os Apóstolos, os quais, por sua vez, estão “em comunhão com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo“. A finalidade da Bíblia é incorporar-nos à Igreja, pôr-nos em contato com a “comunhão dos santos”, aproximar-nos “da assembleia dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus […]; dos espíritos dos justos, que chegaram à perfeição; de Jesus, o mediador da nova aliança e da aspersão do sangue mais eloquente que o de Abel” (Hb 12, 22-24). As páginas sagradas não constituem um fim em si mesmo, portanto, mas são um instrumento para suscitar a virtude da , princípio de todo o organismo espiritual que Deus enxerta em seus filhos adotivos; são um meio para tornar-nos “participantes da natureza divina” (2Pd 1, 4) e saciar o nosso ser com a Palavra por que ansiava desde sempre o nosso inquieto coração.

É preciso dizer tudo isso ao início de um curso bíblico a fim de exorcizarmos, desde já, o espírito individualista com que os cristãos de nossa época, influenciados pela sola scriptura e pelo livre exame de Lutero, cogitam muitas vezes ser possível ler as Sagradas Escrituras, como se elas fossem algum “pergaminho mágico” capaz de conceder-nos, per se, o acesso ao Céu e à salvação eterna. Ora, o próprio Verbo de Deus encarnado, digamo-lo objetivamente, não mandou que ninguém escrevesse livro algum a seu respeito; Ele, que é a Palavra viva e eterna, linha alguma traçou durante seus dias neste mundo e por muitos anos seus seguidores sobreviveram graças à transmissão oral da fé e dos Sacramentos, sem mediação escrita de nenhum gênero. Quem se esquece disso corre facilmente o risco de transferir a única mediação de que é portadora a humanidade de Cristo às páginas de um livro, o qual, ainda que inspirado pelo Espírito Santo, demanda o auxílio do mesmo Espírito para ser corretamente interpretado e transformar a nossa vida.

Emblemática nesse sentido é a experiência de Santo Agostinho, que ele relata em suas Confissões:

Eis que, de repente, ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que cantava e repetia muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê”. E logo, mudando de semblante, comecei a buscar, com toda a atenção em minhas lembranças se porventura esta cantiga fazia parte de um jogo que as crianças costumassem cantarolar; mas não me lembrava de tê-la ouvido antes. Reprimindo o ímpeto das lágrimas, levantei-me. Uma só interpretação me ocorreu: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o primeiro capítulo que encontrasse. […] Depressa voltei para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o livro do Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em silêncio o primeiro capítulo que me caiu sob os olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em leviandades, não em contendas e rixas; mas revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis de satisfazer os desejos da carne”. Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas de dúvida (VIII, 12).

Na vida de Agostinho, Deus lançou mão de um versículo bíblico para atraí-lo. Assim como ele, muitos outros seguiriam o mesmo caminho: alguns, é verdade, alcançados pela mesma via; outros tantos, porém, seriam simplesmente tocados por alguma pregação ou acontecimento em que Deus lhes falou pessoalmente, porque, sejam quais forem os meios de que se serve, “Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como a amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele” (DV 2).

Concentremo-nos, portanto, ao princípio de nossos estudos, na busca ardente do Deus que já nos procura. Ajude-nos nessa tarefa a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da fé (cf. VD 27), a fim de que, crendo como ela acreditou, a Palavra encarnada também venha habitar em nós.

 

Fonte: Do Site www.padrepauloricardo.org

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