O problema dos argumentos protestantes contrários à comunhão dos santos é que eles confundem o recurso a intercessores intermediários na oração (isto é, os que já faleceram) com pedidos a eles como se tivessem a capacidade de atender à oração, embora apenas Deus tenha esta prerrogativa e poder.

As orações católicas dirigidas aos santos (entendidas corretamente, de acordo com o dogma católico) pressupõem isso; mas, por não ser algo afirmado com frequência, muitas vezes os protestantes supõe de forma equivocada que os católicos acham que os santos podem atender nossas orações por si mesmos, independentemente de Deus. Essa (um ponto muitíssimo importante) é a falácia ou o equívoco (ou ambos).

Os protestantes podem contestar por que determinados santos têm uma influência especial ou particular junto de Deus, além de orações mais eficazes em áreas específicas (é a nossa noção de santos padroeiros). Mas não há motivos para levantar objeções. A Bíblia ensina claramente que pessoas diferentes têm diferentes níveis de graça (cf. At 4, 33; 2Cor 8, 7; Ef 4, 7; 1Pd 1, 2; 2Pd 3, 18). Parece-me que, por essa razão, alguns deles podem se especializar em certas áreas mais do que outros, de acordo com diferentes partes do Corpo de Cristo (há muitos ensinamentos paulinos sobre isso).

Não vejo razões para considerar essa prática controversa ou questionável. Geralmente, essa doutrina é questionada por causa de excessos que se observam, mas raramente se apresenta contra ela um argumento robusto com base na Sagrada Escritura.

Permanece ainda o fato de que “a oração do justo tem grande eficácia” (Tg 5, 16). No contexto mais amplo dessa passagem, Tiago afirma: “Elias era um homem pobre como nós e orou com fervor para que não chovesse sobre a terra, e por três anos e seis meses não choveu. Orou de novo, e o céu deu chuva, e a terra deu o seu fruto” (Tg 5, 17s).

Não se segue, portanto, que Elias parecia ter uma influência particular sobre o tempo? Logo, por que não poderíamos pedir que ele (e não outra pessoa) rezasse a Deus para melhorar o tempo, uma vez que ele já pediu outras vezes que a chuva fosse interrompida, e isso de fato aconteceu durante três anos e meio? Com isso não se tornou ele, de alguma forma, o “santo padroeiro da meteorologia”?

Fazemos praticamente a mesma coisa nesta vida com nossos amigos, no nível da empatia. Se, por exemplo, uma mulher enfrenta dificuldades com abortos espontâneos, gravidezes ou partos difíceis, ela pode procurar uma mulher que tenha enfrentado as mesmas coisas e pedir-lhe orações por sua situação.

Não vejo aqui nenhuma dificuldade intrínseca. Os católicos nunca negam a ninguém a capacidade de “ir direto a Deus” [2]. Mas afirmamos com Tiago que certas pessoas têm mais poder (também quanto a certas especificidades); logo, é razoável tê-las como mediadoras. Assim, também, na mesma passagem nós vemos alguns “fatores de oração diferenciados”: “Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor” (Tg 5, 14).

A passagem não diz: “Vá diretamente a Deus e, se não o fizer, correrá o risco de cair em idolatria”. Não: a pessoa doente é aconselhada a buscar os anciãos para que eles possam rezar e ungir.

Os mortos em Cristo estão mais vivos e têm mais consciência do que nós; portanto, é tolice excluí-los de nossa vida de oração.

Notas

  1. Fizemos algumas adaptações nesta parte específica do texto, que estava mais obscura, a fim de torná-la mais inteligível (N.T.).
  2. Note-se que, neste particular, os protestantes costumam ser incoerentes: ao mesmo tempo que negam a licitude da oração de intercessão dirigida aos santos, rezam aqui uns pelos outros, confiam a solução de seus problemas à oração e autoridade do “pastor” de sua igreja e, portanto, admitem ao menos tacitamente a licitude de contar com alguma forma de mediação (N.T.).

Fonte: Site do Padre Paulo Ricardo