Lembro-me claramente de ter ouvido mais de uma vez, quando criança, professores e pregadores supostamente bem-intencionados dizerem algo semelhante a isto: “Durante muito tempo, a Igreja se esqueceu do Espírito Santo, por assim dizer, e com o Vaticano II nós nos lembramos dele. Estamos na era do Espírito”. 

Curiosamente, a era do Espírito fundiu-se a tal ponto com o espírito da época (zeitgeist), que nos restou apenas o “espírito do Concílio”. Na prática, isso significou que os carismas concedidos pelo Espírito Santo à Igreja ao longo do tempo foram progressivamente atacados e banidos. Numa paródia do Batismo, e com um exorcismo às avessas, membros do clero pareciam empenhados em livrar o catolicismo do seu bom espírito e enterrar-se num mundo subterrâneo, em vez de morrer e ressuscitar com Cristo.

Naturalmente, essa ideia de que a Terceira Pessoa foi esquecida é apenas mais uma das “lendas negras” do período pós-Vaticano II. Na verdade, é fácil encontrar observações significativas, doutrinais e devocionais sobre o Espírito Santo na pregação e nas orações de todas as épocas da Igreja — sobretudo em sua liturgia tradicional, na qual o sacerdote pronuncia diariamente estas magníficas palavras: Veni, Sanctificator omnipotens aeterne Deus, et benedic hoc sacrificium tuo sancto nomini praeparatum, “Vinde, ó Santificador, Deus eterno e todo-poderoso, e abençoai este sacrifício para a glória do vosso nome”.

O rito romano tradicional celebra até hoje a vinda do Espírito Santo com uma majestosa Missa de Pentecostes. A Missa solene é precedida pelo canto Veni, Creator Spiritus, quando todos os presentes se ajoelham durante o primeiro verso em humilde súplica. O canto Vidi aquam vem em seguida, enquanto o sacerdote asperge o povo com água benta e cantamos sobre a água da graça que flui do lado de Cristo, ainda que o Espírito proceda de sua boca. O primeiro de muitos aleluias ressoa por toda a igreja. A Missa propriamente dita começa com o intróito Spiritus Domini e o Kyrie, repetido nove vezes, em sua amplitude trinitária. O duplo aleluia inclui as petições Emitte Spiritum tuum, “Enviai o vosso Espírito”, e Veni, Sancte Spiritus, “Vinde, Espírito Santo”, sendo que nos ajoelhamos novamente durante o segundo (levamos a sério essas invocações!). Em seguida vem a magnífica sequência de Pentecostes, que tem início, mais uma vez, com Veni, Sancte SpiritusTudo isso mesmo antes de o Evangelho ser cantado!  

Há mais — muito mais. Da antiguidade até o século XX, a Igreja celebrou tradicionalmente o Pentecostes durante uma semana (uma Oitava), tal como ela faz na Páscoa e no Natal, reconhecendo-a como festa da mais alta importância. Todos os dias os Próprios proclamam aleluias. Todos os dias as leituras exaltam os sacramentos de iniciação, que são eficazes pelo poder do Espírito. Todos os dias, ajoelhamo-nos durante o Veni, Sancte Spiritus, antes da Sequência de Ouro. O Prefácio de Pentecostes vincula a Ascensão de Cristo, o fato de Ele estar sentado à direita de Deus e o derramamento do Espírito de adoção sobre os filhos de Deus. O Cânon Romano usa um Communicantes e um Hanc igitur especiais. Quarta, sexta e sábado da Oitava são Têmporas com leituras e orações especiais. A Terça, ofício do meio da manhã, começa todos os dias com o hino Veni, Creator Spiritus, e mais uma vez a primeira estrofe é cantada de joelhos. Essa semana é, de todos os pontos de vista, uma homenagem e uma súplica dignas da Pessoa divina.

Finalmente, todo domingo posterior à Oitava de Pentecostes é denominado “Domingo depois de Pentecostes”, envolvendo em paramentos verdes a longa temporada de plantio e colheita, até chegarmos ao Último Domingo depois de Pentecostes e iniciarmos um novo ciclo com o Advento.

Quase tudo o que acabei de descrever foi abolido na reforma litúrgica do final da década de 1960. Portanto, quem é realmente culpado “de esquecer-se da Terceira Pessoa da Trindade”?

Uma Igreja tradicional atenta ao Paráclito também pode ser identificada na maravilhosa encíclica de Leão XIII Divinum Illud Munus, de 1897 — por acaso, o mesmo ano do falecimento de S. Teresinha do Menino Jesus, quando ela começaria a cobrir os fiéis com rosas do céu, numa imitação infantil do dom do Espírito em línguas de fogo. 

A lúcida exposição sobre o “lugar” do Espírito Santo na Trindade e a sua presença e ação em Cristo, na Igreja, na alma humana e no mundo faz de Divinum Illud Munus uma verdadeira obra-prima da prosa teológica e espiritual. Vemos em suas páginas uma demonstração de como a doutrina aparentemente complicada de Santo Tomás pode “ganhar vida” nas mãos de quem a compreende de verdade. O Papa Leão escreve com grande sensibilidade:

Hoje, pressentindo avizinhar-se o término de nossa vida, experimentamos o mais vivo desejo de recomendar ao Espírito Santo, que é o amor vivificante, todas as realizações empreendidas durante o nosso pontificado, para que Ele as faça florescer e frutificar […]. Almejamos ardentemente, assim, reavivar e fortalecer nas almas a fé no augusto mistério da Santíssima Trindade, e, sobretudo, aumentar e tornar nelas mais fervorosa a devoção para com o Espírito Divino, a quem todos os que trilham os caminhos da verdade e da justiça devem as maiores graças obtidas.

O Papa examina todos os aspectos da doutrina sobre o Espírito Santo. Aqui, por exemplo, fala do mistério de Pentecostes tal como se aplica aos Apóstolos:

A Igreja, que já existia em estado embrionário, havendo recebido a existência do lado aberto do segundo Adão, como que dormindo no lenho da cruz, nasceu maravilhosamente para a luz do mundo no tão celebrado dia de Pentecostes. Nesse mesmo dia começou o Espírito Santo a repartir seus benefícios no Corpo Místico de Cristo, com aquela admirável efusão que o profeta Joel previra há tempos (cf. Jl 2, 28-29); pois o Paráclito “pairou sobre os Apóstolos, para que fossem coroados de novos diademas espirituais, formados por línguas de fogo sobre suas cabeças” (São Cirilo de Jerusalém, Catequese, 17). Então, escreve São João Crisóstomo, os Apóstolos “desceram do monte, não trazendo nas mãos as tábuas de pedra, como o fez Moisés, mas carregando na alma o Espírito Santo e comunicando-o com profusão aos outros como um grande tesouro e um rio de verdades e de graças” (São João Crisóstomo, In Matth., hom. 1; cf. 2Cor 3, 3). Desse modo se realizou a promessa de Cristo a seus Apóstolos sobre o envio do Espírito Santo, que em pessoa, mediante suas inspirações, deveria levar a bom termo a transmissão da doutrina do mesmo Jesus Cristo.

E, mais uma vez, em relação à Igreja:

Para reconhecer a instituição divina da Igreja não há prova mais convincente do que o seu resplendor e glória provindos dos carismas que o Espírito Santo lhe outorgou em profusão. Baste dizer que, assim como Cristo é a Cabeça da Igreja, assim o Espírito Santo é a sua alma.

A obra de santificação é sempre associada ao Espírito Santo: 

Essa regeneração ou renovação começa para o homem pelo Batismo; nesse sacramento é expelido da alma o espírito imundo, e nela penetra pela primeira vez o Espírito Santo, que a torna semelhante a si: “O que nasceu do Espírito é espírito” (Jo 3, 7). Doa-se a ela ainda, em grau mais perfeito, para lhe outorgar a fortaleza e o vigor da vida cristã, no sacramento da Confirmação; por ele é que os mártires e as virgens triunfaram dos atrativos da corrupção.

Em seguida, o Papa Leão XIII diz algo que deveria nos fazer estremecer de reverência e encanto:

Deus, pela sua graça, reside na alma do justo como em um templo, de maneira completamente íntima e singular; daí os fortes liames de caridade que estreitissimamente unem a alma a Deus, sobrepujando a amizade do amigo ao melhor dos amigos, e a fazem gozá-lo em delícias inexcedíveis. Essa admirável união, denominada “inabitação”, não difere, a não ser por sua condição ou estado, daquela que possuem os habitantes do céu na posse beatífica de Deus; e, não obstante seja um efeito realíssimo de toda a Trindade divina: “Viremos a ele e faremos nele nossa habitação” (Jo 14, 23), é, contudo, considerada obra peculiar do Espírito Santo. Porquanto também no homem perverso podemos deparar reflexos do poder e sabedoria de Deus; mas só o justo participa do amor divino, característica do Espírito Santo.

Analisemos com cuidado o que o Papa nos ensina aqui. A união entre Deus e uma alma em estado de graça só difere em grau ou modo do estado de visão beatífica. Quando Deus habita em nossa alma pela graça santificante e sua principal virtude, a caridade, desfrutamos nesta vida da mesma união que os santos e anjos desfrutam na pátria celeste. As diferenças são acidentais: Deus é visível ou invisível; possuímo-lo de forma mutável ou imutável. Por importantes que sejam essas diferenças, a própria união as supera de longe: Deus é realmente possuído por nós. Essa é a essência da santidade. A compreensão da inabitação de Deus é, em última análise, o antídoto mais eficaz contra o pecado mortal: não queremos perdê-lo, nem agora nem na eternidade.

Em seguida, o Papa Leão XIII expõe o ensinamento de Santo Tomás sobre os dons do Espírito Santo. Aqui também recordamos que um Doutor da Igreja do século XIII possuía não somente compreensão teológica, mas um profundo conhecimento empírico. Quando fala de seus dons, Santo Tomás ressalta a absoluta necessidade da assistência especial do Espírito Santo — todos os dias, ao longo de todo o dia —, caso queiramos chegar ao fim glorioso que Deus nos reserva, porque ele está muito acima de nossa capacidade natural. Em certo sentido, ele excede inclusive o enorme poder das virtudes teologais. É como rezamos com o salmista: “Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto” (Sl 142, 10), a Terra Prometida, o Paraíso. Só o Espírito de Deus nos pode conduzir até lá; o nosso espírito, por aperfeiçoado que esteja, não é o bastante.

Santo Tomás vai mais longe e argumenta que precisamos dos sete dons do Espírito Santo não apenas para alcançar o fim último, mas também para atingir qualquer um dos fins particulares aos quais aspiramos como cristãos — isto é, se quisermos atingi-los como filhos de Deus, agindo por meio de sua sabedoria, conhecimento, fortaleza etc. Podemos até fazer a coisa certa por virtude natural, mas ainda assim não conseguiremos fazê-la “divinamente bem”, como uma refeição que não só é comestível, mas também saborosa. Para isso, temos de rezar e nos colocar à disposição do Espírito Santo, para que as nossas ações sejam guiadas por Ele e para que sejamos os seus instrumentos, pondo em prática as nossas próprias faculdades de juízo e deliberação. Nesse sentido, não pode haver apostolado verdadeiramente católico sem oração mental, como nos mostram os Atos dos Apóstolos de forma emblemática.

Afinal de contas, o Espírito Santo não era a “pessoa esquecida” da Santíssima Trindade até a sua redescoberta pelo “movimento carismático” ou pela “renovação conciliar” no século XX. Nada poderia estar mais longe da verdade, como pode confirmar qualquer pessoa familiarizada com a vida dos santos, com a história das grandes Ordens religiosas e das missões e com a doutrina, as devoções e a literatura tradicionais. Na verdade, o Dom do Deus Altíssimo jamais poderia ser esquecido pela Igreja, já que Ele age em todos os sacramentos, em todos os atos de culto divino, em todas as moções da alma em direção a Deus e em todas as pessoas santas que já viveram.