A ENCARNAÇÃO E A RESSURREIÇÃO – O RESPEITO AOS NOSSOS CORPOS

  • dia 20 de abril de 2020

A ENCARNAÇÃO E A RESSURREIÇÃO – O RESPEITO AOS NOSSOS CORPOS

Em seu incomparável livro sobre Santo Tomás de Aquino, G. K. Chesterton mostra que o Doutor Angélico não apenas defendeu a realidade da Encarnação como mostrou suas implicaçõesA Encarnação uniu o Céu e a terra, mas também uniu o corpo e a alma de uma nova maneira. A presença divina preencheu algo criado, tornando-o sagrado não por um momento, mas para todo o sempre. Mesmo sem a Encarnação podemos compreender que um homem não é um homem sem corpo, assim como tampouco o é sem alma. “Um cadáver não é um homem, mas um fantasma tampouco.” Tendemos a pensar na alma como algo eterno e no corpo como algo temporal. Afinal, corpos sem vida se decompõem. Mas um determinado corpo não se decompôs. Quando o próprio Deus assumiu a carne humana algo novo aconteceu, algo a que Chesterton chama “o mais surpreendente dos dogmas: a ressurreição do corpo”.

Jesus Cristo ressuscitou fisicamente dos mortos. Seu corpo reuniu-se à sua alma. Depois, ascendeu em corpo ao Céu. Cristo é o “primogênito dentre os mortos”, de acordo com São Paulo. Isso quer dizer que devemos segui-lo na ressurreição. Significa que nossos corpos também são sagrados e também ressuscitarão dos mortos para se reunir com nossas almas. Esse é o dogma da Igreja Católica desde sua fundação.

Sejamos francos: o mundo moderno rejeita completamente esse dogma. Sejamos ainda mais francos: a maioria dos católicos provavelmente não reflete sobre o sentido desse dogma. Sejamos francos uma última vez: nós também não. Como diz Chesterton: é um dogma demasiado surpreendente.

A rejeição da tradição, seja pelo mundo ou pelos membros da Igreja, pode ser completa e deliberada ou passiva e irrefletida. Geralmente, ocorre o segundo caso, já que somos levados a desenvolver uma letargia intelectual por influência da tonalidade monótona que dá a falsa noção de progresso. O velho é ruim, o novo é bom. Rejeitemos o que é velho, acolhamos o que é novo. As coisas vão sempre melhorar; então, sigamos o fluxo. Esse senso de “progresso” é uma combinação de otimismo negligente com um determinismo ainda mais negligente. Porém, se pusermos nosso cérebro para funcionar e realmente refletirmos sobre o que estamos rejeitando, compreenderemos as implicações da filosofia que aceitamos inconscientemente. A filosofia do progresso não é apenas um ódio à tradição; é também a ideia de que, inevitavelmente, tudo está melhorando por si só. Ela é usada como justificativa para a má conduta, para considerá-la inevitável e também como um sinal de progresso.

Mas a história não é um relato de progresso. É o relato da Queda e da Salvação, da tentativa de recuperar algo que perdemos. É por isso que Chesterton diz que todos os poemas já escritos poderiam ser compilados num único volume com o título de Paraíso Perdido.

Nós perdemos algo e temos de recuperá-lo. A filosofia da Salvação é completamente diferente da filosofia do Progresso. Queremos restaurar algo que foi perdido? Queremos preservar algo que é bom? Ou queremos persistir num estado de amnésia, vandalismo e cremação (isto é, esquecendo, destruindo e queimando o passado, em vez de enterrá-lo)?

É neste ponto que temos de encarar o surpreendente dogma da ressurreição do corpo. Chesterton previu que a insistência moderna na ideia de higiene (uma ideia “progressista”) traria de volta o hábito pagão da cremação. A cremação realmente está de volta [1]. É um ataque à tradição cristã. Significa queimar as coisas e assim esquecê-las. Não deixa de ser irônico o fato de uma geração que parece idolatrar a saúde e o físico não ter, em última análise, respeito algum pelo corpo. Queimamos o corpo porque não cremos na ressurreição dos mortos. Chesterton diz: “Nós traímos os mortos”.

A cremação moderna é pior que a pagã porque é clínica e fria, caso prefiram usar esses termos. É completamente utilitária e desprovida de cerimônia. Chesterton a sintetiza em seu poema The Song of the Strange Ascetic, “A Canção do Estranho Asceta”:

Se eu fosse um pagão,
minha pira no alto poria
e, em um vermelho turbilhão,
rugindo ao céu iria;
mas é Higgins o pagão
e homem mais rico que eu:
a ele meteram no fogão
como a torta que não comeu [2].

A Igreja Católica desestimula (mas não proíbe) a cremação, porque cremos não apenas no respeito pelo corpo, mas em sua ressurreição. Se a cremação for necessária (como exceção, não como regra), a Igreja ensina que os restos mortais não devem ser espalhados, mas enterrados juntos. Obviamente, um Deus todo-poderoso pode ressuscitar o corpo independentemente de seu estado; mas destruir de forma deliberada os restos mortais é tentar o Senhor, é insistir na idéia de que nossos caminhos são melhores que os dEle.

A moda atual de espalhar as cinzas é também uma tentativa de esquecer a morte. Um túmulo nos faz lembrar dela. Faz com que nos preparemos para nossa própria morte, o que nos ajuda a viver uma vida melhor. Mas nos faz pensar principalmente na ressurreição. O mais glorioso túmulo na terra é o que está vazio em Jerusalém.

Acréscimo do Padre Alexandre Melo:

Diante dessa realidade grandiosa que faz parte de nossa Fé Cristã, a Ressurreição dos corpos ou como dizemos em nosso credo “Ressurreição da carne”, o cristão nunca pode perder de vista que seu corpo é Templo do Espírito Santo, Morada de Deus, pois é um corpo que foi batizado, consagrado ao Deus Trindade Santa e um corpo batizado é um corpo que foi unido ao Corpo do Próprio Cristo, para um dia participar da ressurreição do Senhor para a vida eterna.  Então podemos dizer, sem sombras de dúvida, que uma vez que fomos batizados, nosso corpo não nos pertence, mas pertence ao Cristo, por isso devemos ter um respeito muito sagrado ao nosso corpo que um dia também participará da glória de Cristo juntamente com nossa alma.

O que pensar então do profundo desrespeito ao corpo em nossos tempos: a idolatria do corpo, onde o homem se cultua apenas de forma estética, sem considerar seu espírito que tende para uma comunhão com Deus, a cultura Fitness que tem transformado mulheres em homens musculosos e homens em monstros bombados que super idolatram a própria imagem, as dietas radicais no mundo das modelos e em meio à juventude que tem formado uma geração anorexa ou cheia de bulimia, onde nunca estão satisfeitos com a própria imagem, a prostituição considerada algo quase que sagrado, as mudanças de sexo no mundo transexual onde se despreza não só o corpo, mas também a própria identidade de gênero recebida pelo próprio Deus, as lutas cada vez mais sangrentas dos UFCS nos ringues, onde os corpos se transformam em carnes meramente mutiladas como espetáculo para muitos, e a cultura das tatuagens em excesso, onde o ser humano perde sua própria característica física e normal, parecendo mais como “Gibis” e verdadeiras aberrações da natureza, etc.? Sem deixar de citar o mercado pornográfico e o uso tão banal do sexo, sem nenhum respeito pelo outro, onde entre quatro paredes vale tudo, até mesmo usar partes do corpo que Deus nunca fez para tal finalidade, como o sexo anal e oral e ainda não podemos esquecer de uma verdadeira apologia ao homossexualismo, que ganha cada vez mais espaço em nossas escolas e meios de comunicação, como se fosse um terceiro gênero criado por Deus. Coisas, costumes, modismos, aberrações que jamais poderiam fazer parte da vida de um cristão batizado, pois nossos corpos são templos de Deus, consagrados ao Deus Trindade Santa. Corpos predestinados a um destino de eternidade, de glória sem fim para um dia ressuscitar com o Cristo e juntamente com nosso espírito, participar da felicidade eterna.  Mas nossos corpos só irão receber essa ressurreição da carne, como herança de Cristo dada a nós, se soubermos andar na contra mão desse mundo e aprendermos a viver mesmo como Templos vivos de Deus, adoradores que adoram a Deus também em nossa carne.

Fonte: Site www.padrepauloricardo.org

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